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Bastava

Já me bastava saber de mim
o trivial da história e da família,
as vozes amigas que me lembram
meia dúzia de dias mais secretos,
já me bastava a infância e a memória,
esse cruzar de equívocos e desaires
em lugares diversos e fugazes,
já me bastava ter crescido em sobressalto
teimando que a ventura é um risco
no lajedo.
Já me bastava o amor da velha gente
que procriou a certeza de um futuro
e me legou o nome e vasta terra
para morrer e ocultar nossos mistérios,
já me bastava um sino e uma noite
de profundo azul e algum frio,
a lembrança dessas mãos na minha pele,
já me bastava o coração ardente
colhido pelo amor em pleno Outono
com sabor a mel e tão nervoso
que vindimei os dedos meio tolo,
já me bastava o vento e a terra,
os difíceis bichos e as mulheres
pilhando feno nos lameiros.
Tenho alma sedenta de brandura
e os meus dias são inteiros.
Porquê ainda tu, oh pura fera?

Paulo Jorge Fidalgo

comentários (1)

Nada é de mais para quem gosta de desafios. Por isso nada básta a uma alma sensível como a que escreveu este poema. Há-de vir sempre mais alguma coisa que se não espera.É esse grande milagre da vida.

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 02 de agosto de 2007.

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