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Entre o cântico e a dança

Aqui a contiguidade com o silêncio
toca seu extremo, sem apurar limites:
os arcos mal se atrevem
a inquietar as cordas, mas por vezes
têm de transpor seu alheamento:

umas arcadas atacam, estremecem
e logo se arrependem e entregam
seu cuidado a outra voz,
que, se teme recebê-lo,
o deixa em suspensão
até sua plenitude ser arrebatada.

Entre o cântico e a dança,
uns instrumentos apontam a outros o caminho,
retrocedem a resgatar um assunto
antes somente sugerido,
que exige partilhemos o seu voo.

Voltadas umas para as outras,
as propostas enlaçam-se e completam-se,
aquietam-se na contemplação recíproca
e ganham força para se degladiarem
sem nenhuma vencer outra,
despedirem-se de nós
sem pronunciarem um sequer de nossos nomes,
e impor que continuemos a aceitar,
mesmo após se calarem,

o seu poder pungente,
que no sono se vai em nós insinuando,
sem que se lhe rendam nossas pálpebras:
impedem esse bálsamo sedante
de nos enlear, vedar nossos ouvidos.

O som apela tanto a quanto somos
que não resistimos a um fundo de águas últimas.


José Bento

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 27 de agosto de 2007.

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