há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
Al Berto


comentários (4)
Em breve Al Berto há-de figurar na galeria dos famosos ao lado de Fernando Pessoa e de Luis de Camões. A sua palavra é tão forte e tão fácil ao mesmo tempo que é um fascínio (para não dizer uma alucinação) lê-lo. Ler a sua poesia perturba-me na doce arquitectura que ele faz da palavra. Um dia hei-de escrever a louca história que eu e a Célia vivemos sobre um poema de Al Berto.
Por jaime roriz | fevereiro 16, 2008 1:35 AM
em 16/02/2008 01:35
Bom dia, Jaime. "Um dia" pode ser nunca. Que tal escrever já a história e publicá-la como convidado aqui no Modus? ;)
Um abraço
Por ana r. | fevereiro 16, 2008 8:25 AM
em 16/02/2008 08:25
pois um dia pode ser nunca mas .... tem muita "poucaverginhice" na história. Não sei se o modus admite tanta :-) A proposito de "poucavergonhice" alguma vez leu o meu livro de contos ? :-)
Por jaime roriz | fevereiro 16, 2008 11:03 PM
em 16/02/2008 23:03
Jaime, lamento ter que confessar que ainda não li os seus contos... os escritos que me tem facultado são de outro cariz ;)
Quanto à pouca ou mesmo sem vergonhice, o Modus é receptivo - o único crivo aqui é mesmo o gosto, ou seja, o império da mais absoluta subjectividade :)
Por ana r. | fevereiro 17, 2008 10:47 AM
em 17/02/2008 10:47