O inferno, aqui. Deve ser normal.
Um choro de criança, no andar
de cima, sobrepõe-se à música
que não ouço e que é talvez de Brel
(nenhum quarteto de Mozart serviria agora)
Há dias assim. Os guindastes
da insónia não seguram a voz, desastre
anunciado pela teimosia de pássaros
suburbanos. Coisas de muito esquecer,
se eu pudesse. Mas o corpo hesita,
volta a ser o envelope vazio
de um destino por assinar - e que
nada tem, neste momento, de «literário»,
Sinto a luz na garganta, sufoco
discretamente, alheio ao excesso .
de imagens que me traz o dia. ,
A alegria, se quiserem, fica para mais
tarde. Aqui, de novo, morre-se muito mal
Manuel de Freitas


comentários (6)
O preço do peso urbano... :)
Por vbm | setembro 24, 2008 8:31 AM
em 24/09/2008 08:31
e acima de tudo suburbano, mesmo que no coração da cidade...
Por ana r. | setembro 24, 2008 8:52 AM
em 24/09/2008 08:52
:) Pois, bem vês,
Lisboa foi, por um lado,
invadida, por outro,
despovoada...
Ah! como seria bom
que uma nova sociabilidade emergisse
semelhante à dos nossos sonhos felizes... :)
Por vbm | setembro 24, 2008 9:30 AM
em 24/09/2008 09:30
Reurbanizar é uma impossibilidade prática enquanto se mantiver o grau de especulação no imobiliário. E isso vai manter-se enquanto outras distorções forem pedra de toque do sistema...
Por ana r. | setembro 24, 2008 9:55 AM
em 24/09/2008 09:55
É muito difícil. Vê só o caso dos centros comerciais e o despovoamento das ruas na falta do comércio lojista! Toda a vida e animação de rua se evaporou na insalubridade de um espaço confinado e todo artificial. Ouço dizer que o salazar indeferiu o primeiro requerimento desse tipo de estabelecimento apondo a pergunta sem resposta: e o pequeno comércio? Bom, também é verdade que o ditador indeferia tudo, incluindo todo e qualquer projecto que lhe parecesse megalómano ou dispendioso, :) lol. Mas o certo é que, como pagava o que e quando comprava, nunca os construtores internacionais se melindravam dele os "despedir anualmente de mãos abanar" por todas as ofertas declinar. Até que, finalmente, dissesse que sim, todos os anos se apresentavam de bom grado com o seu "mostruário". Ouço dizer que assim foi com a Ponte de Alcântara sobre o Tejo (que esse devia ser o seu nome; não "Salazar" nem "25 de Abril"), finalmente disse que sim! Mas, até para "poupar" no projecto, mandou que fosse igual à de S.Francisco da Califórnia, Lol
Por vbm | setembro 24, 2008 11:00 AM
em 24/09/2008 11:00
Detalhes curiosos relembrados por este texto, Vasco :) Mas é verdade que a questão de fundo subsiste: a cidade é um problema em si mesma - a urbe cresce e desalinha-se, as margens redefinem-se, os povoadores mudam num movimento de marés, fugindo a qualquer ordenamento que não seja pragmático, mas ainda assim capaz de previsão a um prazo mais longo do que a vida da geração que planeia ...
Por ana r. | setembro 26, 2008 7:39 AM
em 26/09/2008 07:39