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O tempo da monção

Chegava um dia ao tempo da monção.
No alto das figueiras cheirava-se o mar
e o vento trazia o barulho das suas ondas
a rebentar nas rochas em punhados de rendas
brancas ainda por bordar.

As falésias sopravam os fenos e as vinhas
salgavam-se nos pingos da chuva trazida
nas asas e nos gritos das gaivotas invisíveis.

Não apetecia a correr, a desbravar os mistérios
da terra por cultivar ou a subir aos galhos mais altos
das papaieiras curvadas pelo ar convulso dos estios.
Deitados no chão imaginávamos as brincadeiras
desenhando nas nuvens as rotas pelos plantios.

Chegadas as noites apurávamos os ouvidos
ao piar das corujas e aos fogos fátuos nos montes
com medo das feiticeiras e das bruxas dançando
até se cansarem de folia à porta dos cemitérios
ou saltando à fogueira nas encruzilhadas.

Chegava um dia o tempo da monção.
Se demorasse, como costumava demorar,
o cerco dos temores era o mesmo debaixo
da Lua cheia. E as histórias vinham em contas
completas de rosário. Eram sempre inventadas.

José António Gonçalves

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 13 de outubro de 2008.

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