Porque o fim de um caminho sempre me entregou
o limiar de outro caminho,
o verde de um campo ou de um corpo adolescente,
espero que regresse à minha voz
a luz que no primeiro dia a fecundou
e a terra que é contorno dessa luz.
Porque espero ver crescer minhas mãos dessa terra
e de minhas mãos a água necessária à minha sede,
ergo de mim a noite residual do que vivi
e canto,
canto provocando a madrugada.
Porque outros entoarão meu requiem e outros cerrarão
minhas pálpebras para defender meus olhos de suas lágrimas,
deixo essa glória aos outros
- e exalto o meu nascimento
e cada dia em que renasço e procuro
a boca ou o fruto onde se reflitam os meus lábios.
Porque, harmonizando-se no sangue o fogo e a água,
eu sou o fogo e a água:
por mim os cadáveres e quanto é feito da matéria dos cadáveres
libertar-se-ão em chamas, serão claridade
e chegarão a pão pela dádiva das cinzas,
a última dádiva, a total.
José Bento


comentários (3)
Um bocado pan-psiquista,
mas está bem.
Por vbm | fevereiro 10, 2010 9:11 AM
em 10/02/2010 09:11
influência do seu trabalho como tradutor de poetas místicos, como S. Juan de la Cruz, talvez?...
Por ana r. | fevereiro 10, 2010 9:45 AM
em 10/02/2010 09:45
:) Um bom tradutor, na verdade.
Tenho a sua tradução do D. Quixote,
possivelmente superior à de Miguel
Serras Pereira, não sei...
Há um poema simpático
do Fernando Pinto do Amaral
dedicado a esses dois tradutores
da obra de Cervantes :)
Hei-de editá-lo no meu blog.
Por vbm | fevereiro 10, 2010 12:08 PM
em 10/02/2010 12:08