No comboio para Varsóvia Pode acontecer em qualquer lugar, por vezes no combóio, quando estou muito longe: subitamente a porta abre e figuras esquecidas entram, o meu sobrinho, que já não anda por cá, mas que se aproxima, alegre, sorrindo, e um determinado poeta chinês que amava a música e as folhas das árvores no outono, estudantes de teologia de Córdoba, ainda sem barba, emergem de nenhures e saltam à vista, retomando o debate sobre os atributos de Deus, e a esplêndida vida surge como uma queda de água na primavera, até que finalmente um telemóvel soa, inoportuno, depois outro, e um terceiro, e todo este mundo excelente, estranho se contrai e desaparece, exactamente como um rato de campo, que, apercebendo-se do perigo, se retira habilmente para o seu apartamento secreto. Adam Zagajewski, trad. João Luís Barreto Guimarães