« Ubi Troia Fuit | Main | Pompeia »

Discurso aos infiéis

Por que chorar de saudade,
se me resta o longo mar sonoro e vazio,
a flor perfeita, a estrela certa,
e a canção que o pássaro vai bordando ao vento?

Por que chorar de saudade,
se me resta um jardim de palavras,
e os bosques do eco
e estes caminhos da memória me pertencem?

Por que chorar pelo que me levais,
se é maior o que fica:
se a sombra em que voa recordo é mais bela que o vosso vulto,
se não podeis ser em vós o que em mim sois,
se em vós morreis e em mim ressuscitais?

É melhor não ficar jamais com quem nos ama.
O amor é um compromisso de grandeza,
o amor é uma vigília incansável…
e aparentemente vã.

Passai, parti, deixai-me, vós que, no entanto,
parecestes um momento mais adoráveis
que o mar, que a flor, que a estrela,
que a canção que um frágil pássaro vai borlando no vento…

Éreis o vento, apenas.

Cecilia Meireles

comments powered by Disqus

Acerca

Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 05 de setembro de 2015.

Post anterior

Post seguinte

Leia também a primeira página, faça uma pesquisa ou navegue através desta página de todos os títulos em arquivo.

Arquivo

&

Primeiro endereço

© 2004/12 Ana Roque | Powered by JournalistProgrammer | Editado com Movable Type | Top