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No escuro

Certa noite fui fazer companhia ao relógio
Que, para lá da meia-noite, soltou um sonoro estalido
Como se estivesse invulgarmente assustado.
É como fazer das tripas coração,
Expliquei-lhe.
Seja como for, disse-lhe, compreendo-te.

Houve outrora relógios assim
Em todas as cozinhas dos Estados Unidos.
Agora, as janelas da fábrica estão todas partidas.
Os velhos do turno da noite estão no barco de Caronte.
No dia em que parares, disse eu ao relógio,
As rodinhas que se guarda de reserva
Terão entretanto rebolado
Para sítios difíceis de encontrar.

Enquanto pensava nisto, esqueci-me de dar corda ao relógio.
Acordámos no escuro.
A cidade está tão sossegada, disse eu.
Como os relógios dos mortos, replicou a minha mulher.
Avó que estás na parede,
Ouvi as neves da tua infância
A começarem a cair.

Charles Simic, trad. Vasco Gato

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 21 de maio de 2016.

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