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não terei saudades

O que em mim se cala
era já só um capricho meteorológico
um trejeito do ar
-- as horas mais importantes
deixam-se sorver
por lentos magmas
quedas despojadas de chão
a fotografia do espanto
decalcada
na pele da meia-noite --

se me pedes
um testemunho sincero
destes anos que já nem contam
não tenho senão
uma mão-cheia de lumes
de que fui solidário combustível
como o dia em que o limoeiro
do quintal
sonhou com uma grande planície
na circunferência cardeal
ventania que o tivesse
como único destinatário
e foi só a tosca acrobacia
de lhe chegar
aos frutos mais panorâmicos

não
não terei saudades das longas palavras
nem da música sincopada
a que as crianças viram costas
estou só disponível
para um vocábulo que me arranque
à hipnose dos que
não se suicidam
e duvido que volte a assombrar-me
como naquele dia
em que te trouxe o limão alto
e disseste que preferias
o ácido errante dos meus dedos

Vasco Gato

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 04 de março de 2017.

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