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Esta carta não é a última, nem a mais terna

Alzira, desde que me partiste

(bastante mais cedo do que queria e esperava, deixa que te diga), as

coisas ficaram mais apertadinhas, como se estivessem encolhidas.

Deixaste quilos de mágoa nesta parte, para lá de um orgulho ferido,

e enquanto te escrevo esta carta que não sei para onde mande, cresce uma

fúria que não te digo nem te conto (sei que pernoitas com o Jorge, esse boi); talvez

gostes de saber que deixei murchar as plantas da varanda, sobretudo as

hortênsias que deixaste sem qualquer espécie de delicadeza e consideração

(irrita-me essa falta de cuidado, foi mais uma forma de me dizeres que talvez

já não gostasses de mim).

Limpei a casa de quase todas as tuas tralhas,

mas não me desfiz dos vídeos em que estavas inteiramente

nua, e razoavelmente despenteada (a anos do Jorge, algo que também me dá prazer).

 

Olha, cada vez que os vejo chamo-te Alzira,

Parva, e profissões que não passariam na alfândega.

 

Que o sol te seja breve, que envelheças muito, e te cresçam palitos,

raios e coriscos (e que o Jorge não tenha sorte, antes, durante e depois).

 

Se sabias que não ia levar a bem, como me pudeste deixar?

Tanta coisa que investi em ti, Alzira, tantos trocos...

Uma vez até disse que te amava, o que não

vai com a minha tradição de fazer o mundo.

A minha vingança, Alzira, o meu triunfo,

é rasgar o alfabeto, a língua, deixar-te à espera

do que podia (daqui à Zâmbia).

 

Espero que em cada esquina suspeites da minha ternura,

e te faça falta.

 

Rui A.

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 15 de junho de 2017.

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