Escreveste um dia que te levantavas
Quando o desgosto já não era alegórico
E te sufocavam os seus dedos
Devoradores.
Hoje antes de me deitar
Ouço o locutor dizer que a Terra
Será sempre território exclusivo do sol,
Do ar, da água.

Este planeta onde tenho a cama
E os mais instrumentos
Que me suportam o sono e outras formas
De esquecer os dias
Dá-me uma noite calma a ouvir
A voz do mar
Zeladora da minha solidão que sinto
Ligada à sua.

Não me apetece dormir.
Quero ficar de barriga para o céu
À minha volta
Quando o ar não me falta
E água me embala com o seu coro enrouquecido
De navegantes mortos
Com as suas mãos medonhas suspensas
Sobre as rochas
Como as duma velha ama.

Decido-me a fazer companhia
À Terra
E esqueço (sem esquecer)
O cruel fim dos milhares de indefesos,
As chacinas diárias, o ruído do ódio,
Do mal que grita
À minha cabeceira a minutada força
Do destino humano
Traduzido nas suas alegorias
Democratas.

Que belo rendez-vous me propõe
A torpe insónia
Nesta noite de Juízo Íntimo.
Tratar por tu severos astronautas
As emoções da Terra derramadas em gráficos,
O falso azul, os buracos negros,
A luz indiferente das estrelas,
O livro do universo.

E como tu dizias,
O domínio da vida sobre a ideia da morte.
A matéria de deus deitada a meu lado
No branco do lençol.

Armando Silva Carvalho