¶ 31 de Julho de 2008
Porto Santo
o sombreado recorte da ilha
"bene senescere sine timore nec spe"
blogue de Ana Roque
¶ 31 de Julho de 2008
Chegou. Floriu-se o tempo. Abro as janelas e vejo o céu escuro. É finalmente a noite que se realiza e recomeça. É a noite com sua unidade: estrelas florem nos caminhos intérminos. É noite húmida, criadora sempre e materna. É a noite de amor, macia e própria aos afagos; a noite em que se afogam os tormentos. É o silêncio amadurecendo: do seio da sombra noturna vem surgindo a rosa primeira. Augusto Frederico Schmidt
¶ 31 de Julho de 2008
Snow falling and night falling fast, oh, fast In a field I looked into going past, And the ground almost covered smooth in snow, But a few weeds and stubble showing last. The woods around it have it—it is theirs. All animals are smothered in their lairs. I am too absent-spirited to count; The loneliness includes me unawares. And lonely as it is, that loneliness Will be more lonely ere it will be less— A blanker whiteness of benighted snow With no expression, nothing to express. They cannot scare me with their empty spaces Between stars—on stars where no human race is. I have it in me so much nearer home To scare myself with my own desert places. Robert Frost
¶ 31 de Julho de 2008
ou lagartixa para os amigos, em pleno passeio nas pedras quentes de Porto Santo
¶ 31 de Julho de 2008
Some poets sing of scenery; Some to fair maids make sonnets sweet. A fig for love and greenery, Be mine a song of things to eat. Let brother bards divinely dream, I'm just plain human, as you see; And choose to carol such a theme As ham and eggs and tea. Just two fried eggs or maybe three, With lacy rims and sunside up, Pink coral ham and amber tea Poured in a big, fat china cup. I have no crave for finer fare; That's just the chuck for chaps like me. Aye, if I were a millionaire-- Just ham and eggs and tea. When of life's fussiness I tire, And on my skull I wear a cap, As tartan-shawled beside the fire I stroke the kitten on my lap: Give me no broth and chicken breast; My last repast shall hearty be . . . Oh how I'll sup with chuckling zest On ham and eggs and tea! Robert Service
¶ 31 de Julho de 2008
(excerto) Sabes muito bem o que o tempo faz às coisas. Monta o cerco. Expande o deserto. Seca por fora e por dentro.Transforma tudo em pó. Nada lhe resiste. Nada. José Mário Silva, in Efeito Borboleta e Outras Histórias
¶ 31 de Julho de 2008
Esquece-me. Quero andar Ao sabor do meu instinto Cultivado na desgraça. - O amor, Deixa um travo, mas passa. Não tenhas pena. Do alto do meu aprumo Desafio a tua verve: - Para morrer, Qualquer lugar, Qualquer corpo, E qualquer boca me serve. António Botto
¶ 30 de Julho de 2008
O rosto que mereces está sempre noutro espelho. José Mário Silva, in Efeito Borboleta e Outras Histórias
¶ 30 de Julho de 2008
(gentileza de Amélia Pais) Para onde foi a ternura, perguntou ele ao espelho Do Hotel Biltmore, quarto 216. Ah, Poderá o seu reflexo, ali encostado ao vidro, Perguntar também para onde fui, para que horror? É esse reflexo o que agora me contempla com terror Atrás da tua frágil barreira inclinada? A ternura Estava aqui, neste mesmo aposento, neste Lugar, com a sua forma vista, com os seus gritos escutados por ti. Que erro Há aqui? Sou essa imagem fendida, precipitada? É o fantasma do amor aquilo que reflectias? Agora com um fundo de tequila, beatas, colarinhos sujos, Perborato de sódio, um rascunho Para os mortos, um telefone desligado? ... Estilhaçou todos os vidros do quarto. (Conta: $ 50.) Malcolm Lowry, trad.José Agostinho Baptista
¶ 30 de Julho de 2008
Colhia romãs de madrugada, antes que explodissem. José Mário Silva, in Efeito Borboleta e Outras Histórias
¶ 30 de Julho de 2008
(gentileza de Amélia Pais) Que a noite seja perfeita se formos dignos dela Nenhuma pedra branca nos indicava o caminho Onde as fraquezas vencidas acabavam de morrer Íamos para além dos mais longínquos horizontes Com os nossos ombros e com as nossas mãos E esse entusiasmo tamanho Até ao brilho das abóbadas insondáveis E essa fome de permanecer E essa sede de sofrer Sufocando-nos a garganta Como mil enforcamentos Partilhámos as nossas sombras Mais do que as nossas luzes Mostrámo-nos Mais gloriosos com as nossas feridas Do que com as vitórias esparsas E as manhãs felizes Construímos muro a muro A negra muralha de nossas solidões E essas cadeias de ferro prendendo o nosso andar Forjadas com o mais duro metal Que perfeita seja a noite em que nos afundamos Destruímos toda a felicidade e toda a ternura E os nossos gritos não terão Doravante mais do que o trémulo eco Das poeiras perdidas Nos abismos do nada. Alain Grandbois
¶ 29 de Julho de 2008
Quero do nada o barulho das coisas silêncio em que envolvo a noite onde sombras apresentam tormentas cães imóveis nas beiradas das casas zelam o sono dos donos espiam o que quero: ínfima parte repartida antes da aurora e do acordar da amante corpo sobre a cama imensa de vazios meus pobres pedaços vontade ânsia angústia e morte recolhidas nada e tudo rodeado em vida recolhida nos desvãos das luas novas escuridão em que os espíritos tateiam as paredes corpos roçam vontades mães sobressaltadas na perdição dos sonhos. Pedro Du Bois
¶ 29 de Julho de 2008
Ao declinar da tarde chego à cabana velha de muitas gerações. O silêncio deixa-me respirar. As paredes ainda são as mesmas. Grandes manchas de humidade, a luz de astros distantes, a presença de pássaros desconhecidos. Os meus pensamentos que iniciam a ronda das sombras. Era um dia era uma hora propícia de repousos, de vozes como antigamente. Coisas construídas e eu estou aqui ladrar de cães entre as árvores. Eu vejo mais do que a luz, as linhas leves dos montes. Desce neles o perfil divino da terra molhada. As estações na ombreira da porta Raramente lembramos os lugares como um livro que se abre Horizonte já inacessível. O primo pequeno o calção sujo de terra Fotografias pacientemente dispostas sobre a mesa de madeira Sem detença me abandono Veredas perfumadas flores voando pulsa lento o sangue junto ao esqueleto Neste chão vos imagino calados como outrora vida sem desenlace o fogo que se desenrola amei em vós o fulgor do coaxar das rãs o alfabeto sensível do que a escuridão me dizia. Devagar. Deus dá-se por satisfeito espreguiça-se no sereno entardecer. Devagar digo de mim para mim Longa criatura arfando na terra nas horas que passam. Abro a porta, aguardo a quietude abro a saída uma chuva mais frágil entre duas águas que se reúnem. Gérard Calandre, trad. Nicolau Saião
¶ 29 de Julho de 2008
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher entra em casa pela janela e não pela porta por uma porta entra-se em muitos sítios no trabalho, no quartel, na prisão, em todos os edifícios do mundo mas não no mundo Juan Gelman
¶ 29 de Julho de 2008
Inspirar uma ternura apiedada é, talvez, para alguns, uma das formas do jogo do amor; para ele não, nunca teria querido semelhante flecha dentro do seu saco! Amin Maalouf, in O Rochedo de Tanios, trad. Maria da Graça Morais Sarmento
¶ 29 de Julho de 2008
A crazy man that found a cup, When all but dead of thirst, Hardly dared to wet his mouth Imagining, moon-accursed, That another mouthful And his beating heart would burst. October last I found it too But found it dry as bone, And for that reason am I crazed And my sleep is gone. William Butler Yeats
¶ 28 de Julho de 2008
There are no postage stamps that send letters back to England three centuries ago, no postage stamps that make letters travel back until the grave hasn't been dug yet, and John Donne stands looking out the window, it is just beginning to rain this April morning, and the birds are falling into the trees like chess pieces into an unplayed game, and John Donne sees the postman coming up the street, the postman walks very carefully because his cane is made of glass. Richard Brautigan
¶ 28 de Julho de 2008
Posto em sossego duplico dúvidas. Realizo o sonho de estar sozinho. Prospero a ideia de estar perdido. Evoco o vento sobre o telhado e me deixo ao ínfimo: sou da perda o compasso riscado em geografias. Passo em gestos o destino em consideração a morte abstraída ao amanhecer. Em sossego esqueço o fogo: queimar o corpo na lentidão da entrega. Afeição e afeto. Discreto, sigo o caminho. A solidão me objeta a presença e da imagem não percebida o sossego me amedronta em impessoalidade e desprezo. Pedro Du Bois
¶ 27 de Julho de 2008
Já perdera tudo na vida. Não queria perder aquela bala. José Mário Silva, in Efeito Borboleta e Outras Histórias
¶ 27 de Julho de 2008
Time collapses between the lips of strangers my days collapse into a hollow tube soon implodes against now like an iron wall my eyes are blocked with rubble a smear of perspectives blurring each horizon in the breathless precision of silence One word is made. Once the renegade flesh was gone fall air lay against my face sharp and blue as a needle but the rain fell through October and death lay a condemnation within my blood. The smell of your neck in August a fine gold wire bejeweling war all the rest lies illusive as a farmhouse on the other side of a valley vanishing in the afternoon. Day three day four day ten the seventh step a veiled door leading to my golden anniversary flameproofed free-paper shredded in the teeth of a pillaging dog never to dream of spiders and when they turned the hoses upon me a burst of light. Audre Lorde
¶ 27 de Julho de 2008
e descascar ervilhas ao ritmo de um verso: a prosódia da mão, a ervilha dançando em redondilha. misturar ritmos em teia apertada: um vira bem marcado pelo jazz, pas de deux: eu, ervilha e mais ninguém de vez em quando o salto: disco sound o vazio pós-moderno e sem sentido ah! hedónica ervilha tão sozinha debaixo do fogão! as irmãs recuperadas ainda em anos 20 o prazer da partilha: cebola, azeite blues desconcertantes, metamorfose em refogados rítmicos (debaixo do fogão só o silêncio frio) Ana Luísa Amaral
¶ 26 de Julho de 2008
Quando voltei ao mar de antigamente, ao entardecer, no calor das avenidas buscava os antigos companheiros... Como lobo desvairado farejava a sombra quente entre as casas. O cheiro antigo e vazio empurrava-me para a ampla praia frente ao mar aberto. Aí descobria mais clara a amargura e a minha sombra lunar imóvel sobre o cheiro antigo. Sandro Penna
¶ 26 de Julho de 2008
Havia séculos e eram florestas sobre florestas escritas. O canto cantava: era o incêndio do vento folheando a memória da terra essa maranha de raízes aéreas que nasciam enterrando mais fundo as árvores anteriores; essa teia nocturna de troncos e lianas, de ramos e folhas, nervuras que os versos enervam irrespiráveis; esse mapa em relevo lavrado pela paciência da luz que atrasando-se recorta estas estranhas esculturas do tempo: os poemas selvagens o máximo excesso de uma rosa aquática e frágil sempre a nascer desfiladeiros e falésias, fendas, quebradas, ravinas vulcões que deflagram em écrans sucessivos Havia séculos e o cinema dos astros acendia ampolas e bagas, campânulas, cápsulas, lâmpadas; punha em música a infinita noite dos versos que longamente escutam aqueles que muito antes ou muito depois vieram ou virão até estes anfiteatros que os desertos invadem. Havia séculos e / atravessando as ruínas dessa terra quente, as páginas de água dessa rosa alucinada / havia esse: o comum de nós que dos seus se dividindo, verso a verso, procura ainda alguém. E assim era de novo o início. A grande migração das imagens — havia séculos — desde há muito começara, desde sempre, já. E sem cessar migrávamos nós, inquietos e perdidos sem paz e sem lei, sem amos nem destino. Manuel Gusmão
¶ 26 de Julho de 2008
Os triângulos amorosos nunca são equiláteros. José Mário Silva, in Efeito Borboleta e Outras Histórias
¶ 25 de Julho de 2008
Sex, as they harshly call it, I fell into this morning at ten o'clock, a drizzling hour of traffic and wet newspapers. I thought of him who yesterday clearly didn't turn me to a hot field ready for plowing, and longing for that young man pierced me to the roots bathing every vein, etc. All day he appears to me touchingly desirable, a prize one could wreck one's peace for. I'd call it love if love didn't take so many years but lust too is a jewel a sweet flower and what pure happiness to know all our high-toned questions breed in a lively animal. Adrienne Rich
¶ 24 de Julho de 2008
Canção de Março Uma criança chega molhada de outro tempo as nuvens que a protegem são carne do mar O passado é um lapso quando a memória troca os dias de penumbra pla boca que devora A criança retida nos espasmos do ar recupera a paisagem do seu antigo exílio As vespas vão voltar a procurar as rosas como um pastor deitado numa cama de rocha O corpo refreando a ansiedade abriga a incompleta infância que lhe serve de guia. Gastão Cruz
¶ 24 de Julho de 2008
When I was young in school in Switzerland, about the time of the Boer War, We used to take it for known that the human race Would last the earth out, not dying till the planet died. I wrote a schoolboy poem About the last man walking in stoic dignity along the dead shore Of the last sea, alone, alone, alone, remembering all His racial past. But now I don't think so. They'll die faceless in flocks, And the earth flourish long after mankind is out. Robinson Jeffers
¶ 24 de Julho de 2008
Madame Jacques-Louis Leblanc, née Françoise Poncelle, ou outra delicada oitocentista
¶ 24 de Julho de 2008
Não tenho casa para onde voltar nem esperança onde me abasteça por isso caminho. As casas entram em derrocada quando passo a terra é uma serapilheira de escombros. Detenho-me a admirar as pás mecânicas os movimentos das escavadoras eriçam-me de desejo. De noite as contemplo: os perfis imóveis das pás descansando sobre o céu azul cobalto ao lado da lua de luz nacarada são ainda mais belos que os braços dos homens que as manipulam e as escavadoras com as suas enormes bocas abertas e cheias ainda de terra e escombros parecem enormes animais mortos. Os meus pais ensinaram-me a nunca ter nada. Ensinaram-me a nunca voltar para casa a nunca dizer esta casa é minha aqui moro eu neste lugar que amo. Fecho a porta e não preciso de olhar para trás para saber que a casa já não existe. Em nenhum lado sem falar com ninguém moro mas se nos encontrarmos posso ensinar-te a caminhar sorridente sobre a desolação. Miriam Reyes
¶ 23 de Julho de 2008
Louvada seja a luz e a primeira prece humana gravada sobre a pedra a força no animal a conduzir o sol a planta que ao trinar soltou o dia A margem que mergulha e ergue a nuca um cavalo de pedra que o mar cavalga as mil vozes pequenas e azuis o grande busto branco de Poseidon [...] Louvada seja a mesa de madeira o vinho rubro com a mancha do sol os jogos de água a brincar no tecto o filodendro que está de sentinela à esquina Os terraços e as ondas mão na mão uma pegada que empilhou saber na areia uma cigarra a convencer mil companheiras a consciência cheia de luz como o verão [...] Odysseus Elitis, trad.Manuel Resende
¶ 23 de Julho de 2008
Nuestras horas son minutos cuando esperamos saber, y siglos cuando sabemos lo que se puede aprender. * Ya noto, al paso que me torno viejo, que en el inmenso espejo, donde orgulloso me miraba un día, era el azogue lo que yo ponía. Al espejo del fondo de mi casa una mano fatal va rayendo el azogue, y todo pasa por él como la luz por el cristal. Antonio Machado
¶ 23 de Julho de 2008
Dunas atrás da casa gafanhotos cor de madeira cardos cor de areia ao fim da tarde, barcos na água rósea onde a cidade, em frente à casa, cai De madeira caiada a casa está sobre a areia, que escurece quando a maré devagar desce na praia Gastão Cruz
¶ 23 de Julho de 2008
(excerto) You asked me once, and I could give no answer, How far dare we throw off the daily ruse, Official treacheries of face and name, Have out our true identity? I could hazard An answer now, if you are asking still. We are a small and lonely human race Showing no sign of mastering solitude Out on this stony planet that we farm. The most that we can do for one another Is let our blunders and our blind mischances Argue a certain brusque abrupt compassion. We might as well be truthful.I should say They're luckiest who know they're not unique; But only art or common interchange Can teach that kindest truth.And even art Can only hint at what disturbed a Melville Or calmed a Mahler's frenzy; you and I Still look from separate windows every morning Upon the same white daylight in the square. Adrienne Rich
¶ 23 de Julho de 2008
retrato oitocentista de Mademoiselle Jeanne Suzanne Catherine Gonin, mais tarde tornada Madame Pyrame Thomegeux
¶ 23 de Julho de 2008
Bastam as mãos apegadas ao formão e o martelo desbastado ao desenho em giz cera e grafite errático sobre o corpo nu que na cama arde desejos de saudade sabe que o pó entranha a pele e os pés descalços passam em certeira cor o mistério contado como verdade, recortado demonstra o que se encontra sobre a pedra em formato de traços e a cor polida com que se apresentam as obras feitas sem enfeites bastam as mãos repostas sobre a obra. Pedro Du Bois
¶ 22 de Julho de 2008
Deito-me no teu corpo como se fosses a minha última cama no meu quarto de hóspede dos dias. Deito-me e velo a criança lúcida que dorme reclinada na orla marítima do silêncio. Ali onde o tempo se anula e renova na substância palpável dum gesto ou dum olhar colhidos sobre a água construo a minha casa, habito o espaço inteiro disponível para a vida, necessário para a morte. Albano Martins
¶ 22 de Julho de 2008
Why should I blame her that she filled my days With misery, or that she would of late Have taught to ignorant men most violent ways, Or hurled the little streets upon the great. Had they but courage equal to desire? What could have made her peaceful with a mind That nobleness made simple as a fire, With beauty like a tightened bow, a kind That is not natural in an age like this, Being high and solitary and most stern? Why, what could she have done, being what she is? Was there another Troy for her to burn? William Butler Yeats
¶ 22 de Julho de 2008
Tancredo e Hermínia, ou estórias antigas contadas por Torquato Tasso nos idos do século XVI
¶ 22 de Julho de 2008
A circunstância de sermos homem e mulher presos por uma aliança tácita e secreta do sangue é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva. Nascemos sem passaporte, entre fronteiras guardadas por sentinelas de sal e de silêncio. O rio da história corre, estrangulado, entre as pedras, e o cascalho, e os detritos humanos, e a alegria suicida das coisas limpas e puras abandonadas e soltas à vertigem da morte. Construímos para nossa defesa um muro de ironia e de sarcasmo – imponderável cortina de humana ternura envergonhada ou, como tu dizes, perseguida. O silêncio é a corda que nos prende aos mastros, a antena vegetal por onde a vida se insinua, universal e atenta. Marinheiros duma pátria ancorada no tempo, bebemos o sal dos minutos que passam e adormecemos, hirtos, de costas para o mar. Albano Martins
¶ 22 de Julho de 2008
Em manhã de pastoreio ovelhas apriscando largarás de tuas cismas e cajado que um pássaro me hás-de dar quando me amares. Leve levemente mo trarás das fontes dos teus olhos sem nenhum pensamento sem gesto liberto a mansidão do teu silêncio apenas. À minha face matutina descerá uma carícia de pássaro pousado. Zila Mamede
¶ 21 de Julho de 2008
Con tal vehemencia el viento viene del mar, que sus sones elementales contagian el silencio de la noche. Solo en tu cama le escuchas insistente en los cristales tocar, llorando y llamando como perdido sin nadie. Mas no es él quien en desvelo te tiene, sino otra fuerza de que tu cuerpo es hoy cárcel, fue viento libre, y recuerda. Luis Cernuda
¶ 21 de Julho de 2008
(excerto) A vida é o dia de hoje, A vida é ai que mal soa, A vida é sombra que foge, A vida é nuvem que voa; A vida é sonho tão leve Que se desfaz como a neve E como o fumo se esvai; A vida dura um momento, Mais leve que o pensamento, A vida leva-a o vento, A vida é folha que cai! A vida é flor na corrente, A vida é sopro suave, A vida é estrela cadente, Voa mais leve que a ave: Nuvem que o vento nos ares, Onda que o vento nos mares, Uma após outra lançou, A vida - pena caída Da asa de ave ferida - De vale em vale impelida A vida o vento a levou! João de Deus
¶ 21 de Julho de 2008
retrato de Madame Marie Marcotte (ou Marcotte de Sainte-Marie), nascida Suzanne-Clarisse de Salvaing de Boissieu, pintado por encomenda
¶ 21 de Julho de 2008
Napping at midday I hear the song of rice planters and feel ashamed of myself. Kobayashi Issa, translated by Robert Hass
¶ 21 de Julho de 2008
Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão devagar sobre o peito da terra e sente respirar no seu seio os nomes das coisas que ali estão a crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro e as campainhas azuis; a menta perfumada para as infusões do verão e a teia de raízes de um pequeno loureiro que se organiza como uma rede de veias na confusão de um corpo. A vida nunca foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo. Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor da tempestade que faz ruir os muros: explode no teu coração um amor-perfeito, será doce o seu pólen na corola de um beijo, não tenhas medo, hão-de pedir-to quando chegar a primavera. Maria do Rosário Pedreira
¶ 21 de Julho de 2008
en los cielos de mi existir dejaste de volar. desde mañana no te quise. desde mañana prometí que amor no hiciera heridas o levantara templos de amargura en mí. cárcel eterna era el tuyo amor para mis manos. esas edificadoras. esas que se levantan en pleno vuelo o caen. las que hicieron sembradíos en ti y árboles plantaron y fuegos. tú eres mala como la bondad. eres mala como saber que alguien. de algún modo. está sufriendo. pensar que no me tienes es pensar que vas conmigo. sí. de ese tamaño es mi derrota. Rogelio Guedea
¶ 20 de Julho de 2008
agora que passaste muito queimada do sol o vento vem pela estrada até à duna com uma folha de jornal desdobrada aos baldões e as vozes dos piqueniques. tu desceste da moto e foste comprar um gelado, afastando impaciente algumas crianças. era a impostura para a sede, avivada pelos guarda-sóis de cor berrante. nas rochas havia alguns pares esfregando-se mais ou menos à vista. penduraste os óculos de sol no decote da blusa e o gelado avançou para os teus dentes muito brancos. tudo isto dava uma fotografia com o teu peito em grande plano e a cena reflectida nos óculos escuros. Vasco Graça Moura
¶ 20 de Julho de 2008
Love, if I weep it will not matter, And if you laugh I shall not care; Foolish am I to think about it, But it is good to feel you there. Love, in my sleep I dreamed of waking,— White and awful the moonlight reached Over the floor, and somewhere, somewhere, There was a shutter loose,—it screeched! Swung in the wind,—and no wind blowing!— I was afraid, and turned to you, Put out my hand to you for comfort,— And you were gone! Cold, cold as dew, Under my hand the moonlight lay! Love, if you laugh I shall not care, But if I weep it will not matter,— Ah, it is good to feel you there! Edna St. Vincent Millay
¶ 20 de Julho de 2008
O número das ruas que sobem não é o mesmo que o das ruas que descem. Sei que me aguardas e não vou voltar. Amadeu Baptista
¶ 20 de Julho de 2008
Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo doeu-me onde antes os teus dedos foram aves de verão e a tua boca deixou um rasto de canções. No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração que era o resto da vida - como um peixe respira na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos, mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota as forças, são frios os batentes nas portas da manhã. Maria do Rosário Pedreira
¶ 20 de Julho de 2008
Compre na passagem um ramalhete simples e enfeite a sala de visitas tenha a visão do jardim de ontem aspire o perfume como sonho encontrado de situações futuras refaça as flores no vaso retire as hastes diminua o tamanho equilibre a disposição entenda a beleza decorrente da combinação a sala resplandece nas cores silvestres das flores e o jardim se faz breve na efemeridade da vida e morte. Pedro Du Bois
¶ 19 de Julho de 2008
Num reino de bruma, entre os ramos de árvores quase secas e breves trilhos, o ar libertava uma vaga espuma, e a luz soltava líquidos brilhos. Numa clareira, sombras de saudade caíam sobre arbustos rasos, e um canto de campo enchia de sede os vasos que o tempo partiu num dobrar da idade. Colhi antigas papoilas, e colei-as no álbum do horizonte, com o cuspo do poente, enquanto uma voz distante rezava o fim de uma oração doente. E na água parada da lagoa, com os braços soltos como remos sem uso, uma parca branca vogava, à toa, tecendo o destino na linha do seu fuso. Nuno Júdice
¶ 19 de Julho de 2008
Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que não é nada comigo. Distraído percorro o caminho familiar da saudade, pequeninas coisas me prendem, uma tarde num café, um livro. Devagar te amo e às vezes depressa, meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, regresso devagar a tua casa, compro um livro, entro no amor como em casa. Manuel António Pina
¶ 19 de Julho de 2008
How wise I am to have instructed the butler to instruct the first footman to instruct the second footman to instruct the doorman to order my carriage; I am about to volunteer a definition of marriage. Just as I know that there are two Hagens, Walter and Copen, I know that marriage is a legal and religious alliance entered into by a man who can't sleep with the window shut and a woman who can't sleep with the window open. Moreover, just as I am unsure of the difference between flora and fauna and flotsam and jetsam, I am quite sure that marriage is the alliance of two people one of whom never remembers birthdays and the other never forgetsam, And he refuses to believe there is a leak in the water pipe or the gas pipe and she is convinced she is about to asphyxiate or drown, And she says Quick get up and get my hairbrushes off the windowsill, it's raining in, and he replies Oh they're all right, it's only raining straight down. That is why marriage is so much more interesting than divorce, Because it's the only known example of the happy meeting of the immovable object and the irresistible force. So I hope husbands and wives will continue to debate and combat over everything debatable and combatable, Because I believe a little incompatibility is the spice of life, particularly if he has income and she is pattable. Ogden Nash
¶ 19 de Julho de 2008
Pudesse eu personificar e aflorar agora O que me é mais profundo, pudesse eu liberar Meus pensamentos em expressão, e assim lançar Alma, coração, mente, paixões, sentimentos, fortes ou fracos, Tudo o que teria buscado e tudo o que busco, Encerro, sei, sinto, e ainda respiro, numa só palavra, E a palavra fosse luz, eu falaria. Mas, como é, vivo e morro inaudível, Como um pensamento mudo, embainhando-o como uma espada Lord Byron
¶ 18 de Julho de 2008
It was April when you came The first time to me, And my first look in your eyes Was like my first look at the sea. We have been together Four Aprils now Watching for the green On the swaying willow bough; Yet whenever I turn To your gray eyes over me, It is as though I looked For the first time at the sea. Sara Teasdale
¶ 18 de Julho de 2008
Oh, oh, you will be sorry for that word! Give me back my book and take my kiss instead. Was it my enemy or my friend I heard, "What a big book for such a little head!" Come, I will show you now my newest hat, And you may watch me purse my mouth and prink! Oh, I shall love you still, and all of that. I never again shall tell you what I think. I shall be sweet and crafty, soft and sly; You will not catch me reading any more: I shall be called a wife to pattern by; And some day when you knock and push the door, Some sane day, not too bright and not too stormy, I shall be gone, and you may whistle for me. Edna St. Vincent Millay
¶ 18 de Julho de 2008
A Valediction Forbidding Mourning My swirling wants. Your frozen lips. The grammar turned and attacked me. Themes, written under duress. Emptiness of the notations. They gave me a drug that slowed the healing of wounds. I want you to see this before I leave: the experience of repetition as death the failure of criticism to locate the pain the poster in the bus that said: my bleeding is under control A red plant in a cemetary of plastic wreaths. A last attempt: the language is a dialect called metaphor. These images go unglossed: hair, glacier, flashlight. When I think of a landscape I am thinking of a time. When I talk of taking a trip I mean forever. I could say: those mountains have a meaning but further than that I could not say. To do something very common, in my own way. Adrienne Rich
¶ 18 de Julho de 2008
É pelo teu rosto em que as marés passam, pelos teus lábios em que voam gaivotas, pelos teus dedos em que a luz perpassa, pelos teus olhos que me traçam as rotas, que este barco encontra o caminho, que este dia descobre que não é tarde, que as palavras se bebem como vinho, e o fogo não queima quando arde. É no que me dizes quando a noite fala, no que perdura da manhã que se esquece, no que é dito em tudo o que se cala, e não precisa de ser dito quando amanhece. Pode ser o amor tantas vezes sentido, ou só aquilo que vive no coração, pode ser o que pensava ter esquecido, e regressa agora pela tua mão. Quantas vezes já foi primavera, e logo aí as flores morreram: até ao dia em que nada ficou como era, e todas as folhas mortas reverdeceram. Nuno Júdice
¶ 17 de Julho de 2008
Alvo da investigação miro o corpo e atravesso as cores onde se esconde. Branco: o susto invade o dia sem segredos. Observo o olho semicerrado com que a arma mira o condenado. Branco: a memória cede espaço ao presente. O tiro parte. Olho o alvo investigado na constância do pecado. Branco: intercalada cor sem novidade. Pedro Du Bois
¶ 17 de Julho de 2008
Mesmo que partas, ficarei presente Em tua sombra sempre. Nos umbrais De minha vida a sós, sei que jamais Comandarei as emoções e a mente Sem que o toque sereno, antes ausente, De tua mão na minha dê sinais De que estás junto a mim. Sei que por mais Larga a distância , o coração fremente Pulsa em dobro. Teu vulto transparece No que faço e o que sou, e é certo, pois, Que o vinho sabe às uvas de sua messe. E quando rogo a Deus por mim, depois Ele escuta teu nome em minha prece E em meu olhar vê lágrima de dois. Elizabeth Barret Browning
¶ 17 de Julho de 2008
Tal como o que importa num poema é, como escreveu Horácio, usar uma palavra conhecida como se fosse nova, limpando-a do bafio do uso, também no amor o que importa é olhar o rosto que se conhece como se nunca o tivéssemos visto, descobrindo de cada vez a surpresa de um encontro em que a beleza nasce de uma súbita sombra no modo como o olhar se desvia, ou dessa luz que um entreabrir de lábios derrama pelo mundo. Posso dizer: «Amo-te»; e é como se nunca o tivesse dito antes; ou ainda: «As tuas mãos!»; e o objecto que designo transforma-se no verbo que faz avançar a vida, para além da gramática e dos significados. Nuno Júdice
¶ 16 de Julho de 2008
I am unable, yonder beggar cries, To stand, or move; if he say true, he lies. John Donne
¶ 16 de Julho de 2008
my love is building a building around you, a frail slippery house, a strong fragile house (beginning at the singular beginning of your smile)a skilful uncouth prison, a precise clumsy prison(building thatandthis into Thus, Around the reckless magic of your mouth) my love is building a magic, a discrete tower of magic and(as i guess) when Farmer Death(whom fairies hate)shall crumble the mouth-flower fleet He'll not my tower, laborious, casual where the surrounded smile hangs breathless e.e. cummings
¶ 16 de Julho de 2008
A razão de ser do Modus (do actual, entenda-se, na sua pele dos últimos dois anos) surgiu-me de repente, enquanto escolhia mais uma bela imagem para partilhar: é o único território onde me posso permitir ser nefelibata. E a falta que me faz...
¶ 16 de Julho de 2008
To make a prairie it takes a clover and one bee, One clover, and a bee, And revery. The revery alone will do, If bees are few. Emily Dickinson
¶ 16 de Julho de 2008
(gentileza da Amélia Pais) Alteia-se diante de mim a torre de Kenzo Tange, que volta para mim seus três sóis: o sol negro do passado, que já é qual lamparina apagada; o sol do dia presente, qual incêndio avermelhado. E vejo o último sol, o sol do sonho. Dourado, certamente. Mas este sol longínquo e inatingível é também a antena de um radar. Dois pequenos postigos discretos formados por seus olhos. Liubomir Levtechev, tradução de Attílio Cancian
¶ 16 de Julho de 2008
Nas cartas que se escrevem e não chegam ao destino, o que ficou dito tem o eco do que nunca será esquecido: a voz que se ouviu numa paragem do tempo, e atravessa o centro da memória numa inquieta procissão de sombras. Pudessem os arcos do horizonte abrir-se como um lamento de pombas; ou este sonho fechar-se com o correr da cortina de um último acto: nunca os dedos amados irão soletrar a frase do crepúsculo, soltando da sua música um enxame de sílabas. E o azul enche a garrafa do céu para que as aves se embriaguem no púlpito do infinito, arrastando no seu voo uma cinza de imagens. Nuno Júdice
¶ 16 de Julho de 2008
Naquele tempo falavas muito de perfeição, da prosa dos versos irregulares onde cantam os sentimentos irregulares. Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão, agora lês saramagos & coisas assim e eu já não fico a ouvir-te como antigamente olhando as tuas pernas que subiam lentamente até um sítio escuro dentro de mim. O café agora é um banco, tu professora de liceu; Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu. Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes, e não caminhos por andar como dantes. Manuel António Pina
¶ 15 de Julho de 2008
Não restará na noite uma estrela. Não restará a noite. Morrerei, e comigo a soma do intolerável universo. Apagarei as pirâmides, as medalhas, os continentes e os rostos. Apagarei a acumulação do passado. Transformarei em pó a história, em pó o pó. Estou mirando o último poente. Ouço o último pássaro. Deixo o nada a ninguém. Jorge Luis Borges, trad. de Renato Suttana
¶ 15 de Julho de 2008
Nas vastas águas que as remadas medem tranquila a noite está adormecida. Desliza o barco, sem que se conheça que o espaço ou tempo existe noutra vida, em que os barcos naufragam, e nas praias há cascos arruinados que apodrecem, a desfazer-se ao sol, ao vento, à chuva, e cujos nomes se não vêem já. Ao que singrando vai, a noite esconde o nome. Jorge de Sena
¶ 15 de Julho de 2008
símbolo salvífico, mas também da perfeição comofinalidade última, ponto de equilíbrio entre forças contrárias
¶ 15 de Julho de 2008
"Comprovou que a sua felicidade não podia depender das acções dos outros mas do significado que ele desse a essas acções." Gerardo Laveaga, in O sonho de Inocêncio, trad. Ana Isabel Simões
¶ 15 de Julho de 2008
Procura guardá-las, Poeta, por poucas que sejam de guardar, do teu amar as visões. Coloca-as no meio ocultas nas tuas frases. Procura detê-las, Poeta, quando em tua cabeça elas despertam, de noite ou na luz crua do meio-dia. Konstandinos Kavafis, tradução Jorge de Sena
¶ 15 de Julho de 2008
Que seria de mim se a convulsão do mar me transformasse em nuvem, se teus dedos não riscassem a giz o nevoeiro das aves para o encontro extemporâneo das árvores? Teus cabelos de oiro dos campos não me resolvem a angústia das tardes em lábios diluídos num beijo arenoso. Teus olhos de um verde profundo não bebem a sede azul das curvas do vento no esqueleto desta paisagem. Que seria de mim se não riscasses com os dedos o nevoeiro das aves? Luís Adriano Carlos
¶ 14 de Julho de 2008
Ouvir música: estado intermediário antes dos finais seculares das etapas cristãs ou mediáticas dos afins trazendo em sons as dimensões ocultas transformadas em sinais percebidos no âmago da nossa aculturação; finalmente podemos dizer haver entendido o caminho e ter desfrutado o todo e o pouco pretendido andar de todos os dias; as repetições langorosas das notas baixas, menores em composições elementares: o elemento sofre as conseqüências dos projéteis disparados e não se afasta no vagar constante dos instantes elaborados em entremeadas notas: o sonoro não recebido como prova e cicatriz de outros tempos maiores em sementes lançadas aos ventos outonais: onde está e de onde seguirá as notas díspares dos caminhos; bifurca a vida em antes e depois de algo e o agora o sufoca em verdades somente assim poderá acender o som e retirar o agir constante da razão no fulgor dos anos posteriores ao depois onde escondia a mudez recalcitrante da juventude escondida em medos e silêncios a decorrência da ignorância roendo cordas onde amarrado o corpo estende a mão ao passante e pede a compreensão da sua história; no som acre e ácido aprende sobre as passagens melhores das cogitações entremeadas ao canto e a voz feminina explode seus ouvidos sobre a felicidade e a maldade feita em todas essas épocas menores de infidelidades. Pedro Du Bois
¶ 14 de Julho de 2008
São Jerónimo, doutor da Igreja, tradutor da Bíblia para latim e padroeiro dos bibliotecários.
¶ 14 de Julho de 2008
Whenever I go there everything is changed The stamps on the bandages the titles Of the professors of water The portrait of Glare the reasons for The white mourning In new rocks new insects are sitting With the lights off And once more I remember that the beginning Is broken No wonder the addresses are torn To which I make my way eating the silence of animals Offering snow to the darkness Today belongs to few and tomorrow to no one W.S. Merwin
¶ 13 de Julho de 2008
The dragonfly can't quite land on that blade of grass. Matsuo Basho, translated by Robert Hass
¶ 13 de Julho de 2008
Gosto do momento, exacto ou nem por isso, em que se torna possível colar cartazes nas paredes ao lado dos meus ombros (espero o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas - ou das pessoas que desconheço e das bebidas todas que ignoro (porque me matam menos e se chamam - como eu - insónia, pesadelo, golpe baixo). Existem, claro, raparigas louras um tanto heteredoxas que não te apetece beijar (a forca do bâton, perfeita - o cigarro aceso pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de um dia procriar com zelo, evitando rugas, tumores e o mundo como representação misógina. Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas, com a cerveja a premiar a farda demasiado verde e os bigodes de serviço. Outros, alguns, tornam concreto o torpor de um charro e pedem-te em crioulo básico um cigarro português que tu vais dar, sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings, t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar por algumas horas no axioma frágil do teu corpo. Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar qualquer, país de enganos e baratas. E quase gostas disso, quase: a música de punhais, servil, um certo e procurado desencontro. Um táxi te ensinará depois o caminho de casa - ou o seu contrário, pois só ali (anónimo e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser. O resto, a vida, fica para outra vez. Manuel de Freitas
¶ 13 de Julho de 2008
devagar setembro entorna luz na planície devagar o vento inventa choupos e choupos devagar tornam-se rio devagar cavalos surgem galopando erguem brancas as cabeças respiram verdes a claridade E depois seguem devagar pelos túneis de luz Daniel Maia-Pinto Rodrigues
¶ 13 de Julho de 2008
Descem pelas colinas os animais que sonhas São grandes ruminantes fulvos e descem cheios de sol sobre as relvas Ao vento erguem e à claridade as cabeças Dir-se-ia serenos compreenderem muito bem o céu pintado de azul e água Depois seguem. Descem mais Devagar chegam aos charcos onde bebem saboreiam uvas onde se deitam certos de que os vais achar belos e perfeitamente integrados na paisagem Daniel Maia-Pinto Rodrigues
¶ 12 de Julho de 2008
Inteira me deixo aqui, inteira, posto que ausente, - neste corpo que nasci fez-me a vida ou minha mente? De ninguém sobrevivi. Ah! vida, me fiz consciente, mestiça de mim, de ti , em morte - quase semente. E em terra desejo estar e sempre, enquanto me alerto nas vozes de vento e mar. Sem jamais me resolver a conter-me num deserto ou saciar-me de morrer. Maria Ângela Alvim
¶ 12 de Julho de 2008
Depõe silenciosamente as mãos em concha no alto de loucuras astrais pelo vago isoladas Mas serve no inevitável percurso quotidiano as duras queixas que o amador amigo apresenta regularmente De inquebrantável desejo o adejar das águias áleas esguias de serpentes escoando o medo diante dos passos que acompanham essas mãos. Do cão forçosamente recto. Atento. Unilinear e imerso em cava escuridade de pressentimentos ocos roucos sons de malogro. Quando do violino se partiu a corda os altos candeeiros estremeceram e ferozmente se abriram as janelas para as árvores sombrias no alto céu estrelado. Eram assim os jardins dessa ignorada noite. Vagueamos, parados, no doce canto do silêncio soltando pérolas pelos lagos do lado As sombras enrolam-se tu dizes sei e o fantasma perde-se, voz impoluta Serenamente vivo a presença do canto Maria Alzira Seixo
¶ 12 de Julho de 2008
Para onde quer que vá já lá estive o que quer que faça não posso decidir quem quer que eu ame é uma parte por muito que morra fico com vida Eva Christina Zeller, tradução de Maria Teresa Dias Furtado
¶ 12 de Julho de 2008
As the kindling glances, Queen-like and clear, Which the bright moon lances From her tranquil sphere At the sleepless waters Of a lonely mere, On the wild whirling waves, mournfully, mournfully, Shiver and die. As the tears of sorrow Mothers have shed— Prayers that tomorrow Shall in vain be sped When the flower they flow for Lies frozen and dead— Fall on the throbbing brow, fall on the burning breast, Bringing no rest. Like bright waves that fall With a lifelike motion On the lifeless margin of the sparkling Ocean; A wild rose climbing up a mouldering wall— A gush of sunbeams through a ruined hall— Strains of glad music at a funeral— So sad, and with so wild a start To this deep-sobered heart, So anxiously and painfully, So drearily and doubtfully, And oh, with such intolerable change Of thought, such contrast strange, O unforgotten voice, thy accents come, Like wanderers from the world's extremity, Unto their ancient home! In vain, all, all in vain, They beat upon mine ear again, Those melancholy tones so sweet and still. Those lute-like tones which in the bygone year Did steal into mine ear— Blew such a thrilling summons to my will, Yet could not shake it; Made my tost heart its very life-blood spill, Yet could not break it. Matthew Arnold
¶ 11 de Julho de 2008
'and we should die of that roar which lies on the other side of silence' George Eliot, in Middlemarch
¶ 11 de Julho de 2008
Para qualquer sítio abandonar o mundo sem sair de nenhum lugar o que cresce o que murmura o que tudo abala só água e cada hora que cai pela noite fora o que está deitado só nada já fundo e longe enquanto as horas deslizam certas transpondo a margem para onde o olhar transpondo as margens onde só e tanto até o rio ficar esvaziado - colhido tudo experimente o homem para cada viagem Eva Christina Zeller
¶ 11 de Julho de 2008
outro São João Baptista, ou a leveza do ícon
¶ 11 de Julho de 2008
Vous n'êtes que les masques sur des faces masquées Apollinaire Start, then, with a sense of beginning, of sleep entered like a metal door backstage—the weight of heavy, plush curtains lifted and folded, hanging motionless, while the catwalk sways, and winches and pulleys creak.It is no longer rest one seeks, but mastery—the knowledge of ways to choose among strands of rope rising into the dark, boxes of switches, levers to be thrown, dials gleaming. The action comes closer now—the murmur of voices tinged with laughter, issuing from the cavernous space beyond the footlights.And sporadic applause, followed by music.But though this mattered once, though dreams well up in this way, too, with easy, delicious abandon, and sleep has its own texture—the painted faces seem familiar, even your father is here, looking the way he always did—still, this is only rehearsal.Truth to tell, there is no one out there except the director, sitting with his clipboard, thirty seats back.In the wings, the pianist goes over the same simple tune.Yes, there are spotlights, from a place you cannot see, and scenery rises and falls, and darkened figures glide across the stage during blackout, rearranging the furniture—all this is happening, yet it goes on whether you reach out, or whether you simply watch. But they have lost the script, or dropped the only copy. Its pages flutter across the stage, lifted by a cold wind blowing from the air shaft, swirling up from the alley and the blank walls beyond.Fluorescent lights flicker in the wardrobe room.In the corridor, the red exit sign glimmers.All of this is waiting.You must write it now, you must make it happen.There are only a few days left until opening night.Come, then: rest, slumber, dream; take my hand, we will visit the forgotten dressing rooms under the stage, where the old tragedians scrawled verses on the bare planks.We will go up into the attic, above the chandeliers and the catwalks, where silence settles like a fine dust on the broken props, and the trunks filled with ruined costumes.Will they arrive in time, these truths to tell, this chorus of voices? I am convinced of it. Let us each take a part, let us begin the first reading. Jared Carter
¶ 10 de Julho de 2008
o mar não conhece as profundidades nenhum azul nem conhece as suas ondas o mar não é soberbo nem manso nem amargo não conhece o sabor do vento nem da espuma o mar não vê nenhum sol nem terra nem seixos O mar não ama o céu nem a lua o mar não se conhece Eva Christina Zeller, tradução de Maria Teresa Dias Furtado
¶ 10 de Julho de 2008
Art thou pale for weariness Of climbing heaven and gazing on the earth, Wandering companionless Among the stars that have a different birth, And ever changing, like a joyless eye That finds no object worth its constancy? Percy Bysshe Shelley
¶ 10 de Julho de 2008
New love, new love, where are you to lead me? All along a narrow way that marks a crooked line. How are you to slake me, and how are you to feed me? With bitter yellow berries, and a sharp new wine. New love, new love, shall I be forsaken? One shall go a-wandering, and one of us must sigh. Sweet it is to slumber, but how shall we awaken- Whose will be the broken heart, when dawn comes by? Dorothy Parker
¶ 10 de Julho de 2008
A thinking woman sleeps with monsters. The beak that grips her, she becomes.And Nature, that sprung-lidded, still commodious steamer-trunk of tempora and mores gets stuffed with it all:the mildewed orange-flowers, the female pills, the terrible breasts of Boadicea beneath flat foxes' heads and orchids. Two handsome women, gripped in argument, each proud, acute, subtle, I hear scream across the cut glass and majolica like Furies cornered from their prey: The argument ad feminam, all the old knives that have rusted in my back, I drive in yours, ma semblable, ma soeur! Adrienne Rich
¶ 10 de Julho de 2008
Spring rides no horses down the hill, But comes on foot, a goose-girl still. And all the loveliest things there be Come simply, so, it seems to me. If ever I said, in grief or pride, I tired of honest things, I lied: And should be cursed forevermore With Love in laces, like a whore, And neighbours cold, and friends unsteady, And Spring on horseback, like a lady! Edna St. Vincent Millay
¶ 9 de Julho de 2008
Hoje aconteceu-me mais um cabelo branco (não sei se tinhas dado com este:) fica mesmo ao lado da risca entre os vinte e nove e os trinta. O dia de amanhã já existe ora (a hora nas agendas) lembra uma camisa limpa que drapeja ao secar (cada dia que me aceita propõe novo recomeço). Todos temos uma alma gémea frente ao espelho tinha feito 15 anos (hoje acatei outros quinze) foi sempre no gesso da idade que assinei o poema. João Luís Barreto Guimarães
¶ 9 de Julho de 2008
The apparition of these faces in the crowd; Petals on a wet, black bough. Ezra Pound
¶ 9 de Julho de 2008
Do you know the name of the average animal? Not the dog, Not the green-beaded frog, Nor the white ocean monster lying flat – Lower than that. The curling one who comes out in the storm – The middle one’s the worm. Lift up your face, my love, lift up your mouth, Kiss me and come to bed And do not bow your mouth, Longer on what is bad or what is good – The dead are terribly misunderstood, And sin and godhead are in the worm’s blind eye, We’ll come to averages by and by. Muriel Rukeyser
¶ 9 de Julho de 2008
Há quanto tempo aqui estamos ? Dez marés e cinco ondas há uma idade perfeita para morrer refém da areia (ninguém escolhe nascer nem escolhe sua doença). Uma ave nunca faz outra vez o mesmo curso há quanto tempo aqui estamos ? A língua do mar é quem lambe a depressão das pegadas num excesso de zelo. Quando nada traz sentido sempre as ondas batem certo há quanto tempo aqui estamos ? Mesmo a mais perfeita vaga sempre cai espuma na areia onde os fracos vão beber o champanhe dos derrotados. João Luís Barreto Guimarães
¶ 9 de Julho de 2008
I guess you're not aloneI fear you're alone There's, of course, poetry: awful bridge rising over naked air:I first took it as just a continuation of the road: "a masterpiece of engineering praised, etc."then on the radio: "incline too steep for ease of, etc." Drove it nonetheless because I had to this being how—So this is how I find you:alive and more Adrienne Rich
¶ 8 de Julho de 2008
é preciso perguntar pela perfeição quando nesse silêncio desembarcam palavras (escrever letras colher flores) é preciso perguntar pela fronteira quando em pétalas de begónia se esconde a linha que divide essas cidades. assim mesmo não existe tempo para cuidar da terra (L. e eu somos amigos falamos frequentemente desse inatingível: perder o lugar das coisas ganhar o silêncio do sítio por elas desocupado). nunca entendi muito de chuvas mas eis o inverno e no inverno passo por cima das mais pequenas águas esqueço por isso a pergunta: qual a regra do acaso? há muito tempo que a chuva para cair pede licença e pousar palavras na certeza é um risco. na seiva dessas plantas reconheces pinheiros? (ou apenas erva daninha) João Luís Barreto Guimarães
¶ 8 de Julho de 2008
Cedo ao rastro de restos que me tenta até ti (pernas de nylon vazias sapatos desafogados) metades desirmanadas que arrumo no poema. Posso disturbar o teu espaço? Entrar e ficar a ver? Estás sob a linha d'água (gume que fere o mamilo) como um escultor pergunto com a precisão de poros pela mulher dentro da pedra. Desenrolas da torneira o novelo que te veste (o corpo em repouso contem a soma dos movimentos) lavo-te até ao teu cheiro até respirar de ti o perfume verdadeiro. João Luís Barreto Guimarães
¶ 8 de Julho de 2008
In love's dances, in love's dances One retreats and one advances, One grows warmer and one colder, One more hesitant, one bolder. One gives what the other needed Once, or will need, now unheeded. One is clenched, compact, ingrowing While the other's melting, flowing. One is smiling and concealing While the other's asking kneeling. One is arguing or sleeping While the other's weeping, weeping. And the question finds no answer And the tune misleads the dancer And the lost look finds no other And the lost hand finds no brother And the word is left unspoken Till the theme and thread are broken. When shall these divisions alter? Echo's answer seems to falter: 'Oh the unperplexed, unvexed time Next time...one day...one day...next time!' A.S.J. Tessimond
¶ 7 de Julho de 2008
muda o rosto fica a tristeza pequeno erro de apenas se saber falar longos dias depois de se nascer. vão chegando os amigos repousam de cais em cais sabem na voz o alimento favorito dizem coisas impossíveis até à certeza do nosso sorriso seu bilhete de estadia. algo vivo molha os lábios: nunca um deserto foi tão sobre a praia a maré tão sobre os olhos como nas primeiras palavras silêncio que a voz respira com os dedos no olhar. cresce o corpo a incerteza: é como habitar uma jangada retirar água à boca se os lábios choram a sede por quem morrer perdendo as mãos? se ainda há peixes fugindo pelos muitos buracos da rede João Luís Barreto Guimarães
¶ 7 de Julho de 2008
Caminante, son tus huellas el camino, y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar, Al andar se hace el camino, y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar. Caminante, no hay camino, sino estelas en el mar. Antonio Machado
¶ 6 de Julho de 2008
vens caindo pela dor acomodando. nuas palavras à ferida de ter perdido. a face é pequena para sentir o que em nós sobrevive no instante em que a voz desce as sombras desse dia onde voltar já não se escreve com medo das marés. podes agora subir é como estar de novo na luz João Luís Barreto Guimarães
¶ 6 de Julho de 2008
(gentileza de Amélia Pais) Senhor, o amor é uma coisa que mete medo não sabeis pois que se trata de um trabalho difícil exige uma coragem e uma fé além do improvável uma humanidade indizível uma fraternidade cega dinheiro e garrafas crianças ao acaso olhares nem sequer fulminantes e charcos de céu e festas campestres quando o tempo permite o amor quer idas à pesca, patins e chocolate negro o amor quer a curva suave e a facilidade é tão difícil, Senhor não poderia descrevê-lo em toda a sua volúpia para lá dos seus mártires e dos seus desastres hipócritas o amor é pleno de alegria e segue o seu caminho na névoa dos primeiros passos na roupa pendurada no inverno na corda tensa vai para onde calha e muito lentamente lentamente demais o amor segue como um ouriço do mar oco cheio de areia como um botão que se deixa por coser é miserável é uma pluma move-se ao vento quando o coração bate é esplêndido lavado pela maré mesmo na maré odiosa é onda e é belo é onda e é belo e cheio de algas é o silêncio é a luz uma coisa assim vulgar Hélène Monette, tradução de Rosa Alice Branco
¶ 6 de Julho de 2008
Cobalto nos faróis no azulado zinco dos cabelos no calor ampliado das axilas nas vértebras arando o pavimento O contacto cruzado e celular dos ouvidos no vácuo a esfera de sangue nivelada à distância dos poentes da terra o impossível fixo das marés o mar e a lua vazia de folhas e animais O movimento do suor no ar o cansaço nos troncos e no sol a terra o fumo os ascensores os incêndios a suspensão dos astros sobre a noite O nível do cobalto a construir a morte nas vertentes a penumbra das rectas os arbustos fechados no quadrante dos pulsos golpeados a sede o espaço o pânico a mobilização do horizonte no patamar do vento da cidade Gastão Cruz
¶ 6 de Julho de 2008
Ficávamos de tarde com a música na escuridão dos quartos repassados de secura como se a luz atravessasse sem claridade a casa O corredor alargava junto às salas fechadas a maior acabava num púlpito debaixo do torreão em forma de coroa da casa Durante horas a música lançava obscuras vagas o futuro tão perto já cavava covas nas salas nunca usadas Gastão Cruz
¶ 5 de Julho de 2008
I am the little man who smokes & smokes. I am the girl who does know better but. I am the king of the pool. I am so wise I had my mouth sewn shut. I am a government official & a goddamned fool. I am a lady who takes jokes. I am the enemy of the mind. I am the auto salesman and lóve you. I am a teenage cancer, with a plan. I am the blackt-out man. I am the woman powerful as a zoo. I am two eyes screwed to my set, whose blind— It is the Fourth of July. Collect: while the dying man, forgone by you creator, who forgives, is gasping 'Thomas Jefferson still lives' in vain, in vain, in vain. I am Henry Pussy-cat!My whiskers fly. John Berryman
¶ 5 de Julho de 2008
Quando nada mais houver, eu me erguerei cantando, saudando a vida com meu corpo de cavalo jovem. E numa louca corrida entregarei meu ser ao ser do Tempo e a minha voz à doce voz do vento. Despojado do que já não há solto no vazio do que ainda não veio, minha boca cantará cantos de alívio pelo que se foi, cantos de espera pelo que há de vir. Caio Fernando Abreu
¶ 4 de Julho de 2008
Riches I hold in light esteem, And love I laugh to scorn; And lust of fame was but a dream That vanish'd with the morn: And if I pray, the only prayer That moves my lips for me Is, "Leave the heart that now I bear, And give me liberty!" Yes, as my swift days near their goal, 'Tis all that I implore: In life and death a chainless soul, With courage to endure. Emily Brontë
¶ 4 de Julho de 2008
Down the blue night the unending columns press In noiseless tumult, break and wave and flow, Now tread the far South, or lift rounds of snow Up to the white moon's hidden loveliness. Some pause in their grave wandering comradeless, And turn with profound gesture vague and slow, As who would pray good for the world, but know Their benediction empty as they bless. They say that the Dead die not, but remain Near to the rich heirs of their grief and mirth. I think they ride the calm mid-heaven, as these, In wise majestic melancholy train, And watch the moon, and the still-raging seas, And men, coming and going on the earth. Rupert Brooke
¶ 4 de Julho de 2008
Chegaste com a tua tesoura de jardineiro e começaste a cortar: umas folhas aqui e ali uns ramos que não doeram... Eu estava desprevenida quando arrancaste a raiz. Yvette Centeno
¶ 4 de Julho de 2008
Of whom so dear The name to hear Illumines with a Glow As intimate—as fugitive As Sunset on the snow— Emily Dickinson
¶ 3 de Julho de 2008
Sob o olhar desta tarde, quantas horas revivem e morrem de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem, de novo somos julgados, o que era tudo some-se e num mundo fechado outras vigílias doem. A noite se organiza e, no entanto, ainda restam certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas este ser já não-ser que se dissolve e deixa vagos traços na tarde? Emílio Moura
¶ 3 de Julho de 2008
De madeira lilás (ninguém me crê) se fez meu coração. Espécie escassa de cedro, pela cor e porque abriga em seu âmago a morte que o ameaça. Madeira dói?, pergunta quem me vê os braços verdes, os olhos cheios de asas. Por mim responde a luz do amanhecer que recobre de escamas esmaltadas as águas densas que me deram raça e cantam nas raízes do meu ser. No crepúsculo estou da ribanceira entre as estrelas e o chão que me abençoa as nervuras. Já não faz mal que doa meu bravo coração de água e madeira. Thiago de Mello
¶ 2 de Julho de 2008
Climb, claim your shelf-room, far Packed from inquisitive moon And cold contagious stars. Lean out, but look no longer, No further, than to stir Night with extended finger. Now fill the box with light, Flood full the shining block, Masonry against night. Let window, curtain, blind Soft-sieve and sift and shred The impertinence of sound. Now draw the silence up, A blanket round your ears; Lay darkness close and sure, Inverted cup to cup On your acquiescent eyes: Dismissing body's last outposted spies. A.S.J. Tessimond
¶ 2 de Julho de 2008
(gentileza de Amélia Pais) Prefiro o cinema. Prefiro os gatos. Prefiro os carvalhos nas margens do Warta. Prefiro Dickens a Dostoievski. Prefiro-me a gostar das pessoas em vez de amar a humanidade. Prefiro para uma emergência ter agulha e linhas. Prefiro a cor verde. Prefiro não afirmar que a razão é a culpada de tudo. Prefiro as excepções. Prefiro sair mais cedo. Prefiro falar de outras coisas com os médicos. Prefiro as velhas ilustrações listradas. Prefiro o ridículo de escrever poemas ao ridículo de não os escrever. Prefiro no amor os pequenos aniversários para festejar todos os dias. Prefiro os moralistas que nada me prometem. Prefiro uma bondade algo prudente a outra confiante em demasia. Prefiro a terra à civil. Prefiro os países conquistados aos conquistadores. Prefiro guardar as minhas reservas. Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem. Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais. Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas. Prefiro os cães sem a cauda cortada. Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros. Prefiro gavetas. Prefiro muitas coisas que não menciono aqui a outras também aqui não mencionadas. Prefiro os zeros soltos aos dispostos em bicha para o número. Prefiro o tempo de insectos ao de estrelas. Prefiro fazer figas. Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é. Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade de ter a existência o seu sentido. Wislawa Szymborska
¶ 2 de Julho de 2008
Os que não podem amar estão cantando. A luz é tão pouca, o ar é tão raro que ninguém sabe como eles ainda vivem. Os que não podem amar estão cantando, estão cantando, e morrendo. Ninguém ouve o canto que soluça por detrás das grades. Emílio Moura
¶ 2 de Julho de 2008
(excerto) O bem é ser livre E voar muito além dos pinheiros da montanha. O mal é ser cativo E ter olhos de pássaro cegados por agulhas. O bem é ser jovem E conquistar com passos decididos a estrada do ideal. O mal é ficar velho de repente E fazer um triste inventário de rugas. O bem é ser semente E fecundar de palavras o vento e a terra. O mal é ser solo estéril E não poder estalar de arroz e mistérios. Raquel Naveira
¶ 1 de Julho de 2008
Tu não tens alma Pois só tens vida; A que eu tinha. Se tenho a morte A vida é tua Tu (alma) és minha. De ti eu tenho, Vindo da chama, Um leve sopro E por ser morto, Não tenho amor; Está em teu corpo. José Carlos de A. Brito
¶ 1 de Julho de 2008
Já nada vejo nessa bruma que ora te esconde. Quero encontrar-te, mas à noite não me traz nenhuma esperança de onde nem quando. Amor, ah, quanto me deves! Que é dos pés que, leves, leves, roçaram por este chão? Alma, és só tempo e solidão. Emílio Moura
¶ 1 de Julho de 2008
Poeminha de louvor ao pior inimigo do cão Gato manso, branco, Vadia pela casa, Sensual, silencioso, sem função. Gato raro, amarelado, Feroz se o irritam, Suficiente na caça à alimentação. Gato preto, pressago, Surgindo inesperado Das esquinas da superstição. Cai o sol sobre o mar. E nas sombras de mais uma noite, Enquanto no céu os aviões Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde, Terminam as diferenças raciais. Da janela da tarde olho os banhistas tardos Enquanto, junto ao muro do quintal, Os gatos todos vão ficando pardos. Millôr Fernandes
¶ 1 de Julho de 2008
Renasces em ti mesma e por ti mesma. Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis. O imponderável é a tua matéria. A poesia só me visita para que te realizes, para que eu te sinta e te compreenda. Que caminhos te prendem, que ignotas rotas te iluminam? Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora. De repente, tudo se torna tão irreal que te sinto visível. Emílio Moura